Quando os padrões habituais de ligação do cérebro se desviam do que é considerado normal, podem surgir perturbações psicóticas, como a esquizofrenia e a perturbação bipolar.
Um novo estudo identificou aquilo a que os investigadores chamam “sismos cerebrais”, fenómenos que interferem com a conectividade cerebral em pessoas que vivem com estas condições e que enfrentam psicose incapacitante.
Ao detalhar o papel destes sismos cerebrais, a equipa de investigação pretende compreender melhor perturbações cerebrais comuns e, possivelmente, aproximar-se de intervenções terapêuticas que ajudem a controlá-las.
O que são os sismos cerebrais e como afetam as redes do cérebro
Na prática, os sismos cerebrais correspondem a um desequilíbrio entre redundância e sinergia nas redes cerebrais - isto é, entre circuitos de células do cérebro que processam informação partilhada (redundância) ou complementar (sinergia). A redundância torna o cérebro mais resistente, enquanto a sinergia lhe permite extrair mais informação a partir de entradas relacionadas.
Segundo os autores, os cérebros de pessoas com perturbações psicóticas revelaram um desequilíbrio mais marcado, com conectividade mais irregular e aleatória.
“Neste estudo, apresentamos evidência convergente que sugere que o cérebro psicótico exibe estados de aleatoriedade tanto nas dimensões espaciais como temporais”, escreve Qiang Li, neurocientista computacional no Centro TReNDS (Translational Research in Neuroimaging and Data Science), em Atlanta, juntamente com colegas, no artigo publicado.
O que revelou o estudo com 1.111 participantes
Os investigadores analisaram exames cerebrais detalhados de 1,111 participantes: 288 pessoas com esquizofrenia, 183 com perturbação bipolar e 640 controlos saudáveis. Cada exame durou cerca de cinco minutos, com a análise ajustada para identificar interações de ordem superior (mais complexas).
Os sismos cerebrais foram detetados a “ressoar” no cérebro de pessoas com esquizofrenia e perturbação bipolar muito mais do que nos controlos saudáveis, afetando regiões associadas a emoções, memória e informação sensorial.
Os autores comparam estes sismos cerebrais a vulcões ativos: em pessoas com perturbações psicóticas, certas redes mostraram maior propensão para ruturas súbitas e regulares.
Ainda assim, como todos os participantes foram considerados psiquiatricamente estáveis durante a experiência e os exames foram realizados em estado de repouso, estes sismos não têm, necessariamente, uma ligação direta a episódios psicóticos.
“Estes resultados sublinham o impacto grave dos estados psicóticos em redes cerebrais críticas, em múltiplas escalas, sugerindo uma alteração profunda na complexidade e nos estados de organização do cérebro”, escrevem Li e colegas.
O que ainda falta esclarecer sobre estes padrões de conectividade
O trabalho oferece aos cientistas uma perspetiva nova e muito relevante sobre o cérebro de pessoas que vivem com perturbações psicóticas, embora sejam necessários mais estudos para acompanhar o padrão e a frequência destes sismos cerebrais por períodos superiores a cinco minutos.
Os investigadores afirmam também que é preciso estudar de que forma estes sismos cerebrais podem influenciar a função cognitiva. Para já, não é evidente se estas ruturas estão a contribuir para o aparecimento das perturbações psicóticas ou se são uma consequência das mesmas.
O cérebro é uma rede tão sofisticada que isolar as causas de condições como a esquizofrenia e a perturbação bipolar é particularmente difícil, apesar dos avanços. Por exemplo, tem sido possível melhorar a identificação de pessoas com maior risco destas condições, nomeadamente através de biomarcadores no organismo.
Também se conhecem alguns fatores que podem desencadear episódios psicóticos, incluindo o consumo de canábis de elevada potência. Cada uma destas descobertas ajuda a perceber melhor o que acontece no cérebro quando este se afasta, por momentos, da realidade.
De acordo com os dados mais recentes, até 3 em 100 pessoas nos EUA terão um episódio psicótico em algum momento da vida - e, embora existam formas de gerir estas condições, os cientistas continuam a procurar tratamentos mais eficazes e com menos efeitos secundários.
“As perturbações psicóticas, como a esquizofrenia e a perturbação bipolar, colocam desafios diagnósticos significativos com grandes implicações na saúde mental”, escrevem os investigadores.
A investigação foi publicada na revista Molecular Psychiatry.
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