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Luca Gianaroli defende consultas de saúde reprodutiva para jovens

Casal jovem conversa numa mesa com medicamentos e documentos, com vista para a cidade e rio ao fundo.

Luca Gianaroli é uma das referências europeias em medicina da reprodução e esteve em Lisboa para participar na conferência “Combater a Infertilidade”, promovida pela Merck. Integra a Federação Internacional da Fertilidade e explica por que motivo considera que todos os jovens devem ter uma consulta de saúde reprodutiva, para que, mais tarde, possam fazer escolhas mais informadas.

Parentalidade tardia e o relógio biológico na Europa

Em Portugal, a taxa de pessoas que não querem ter filhos é baixa, mas muitas desejam mais filhos do que têm. Como é no resto da Europa?

O padrão é muito parecido. E a explicação é simples: a procura de gravidez e o início da parentalidade estão a acontecer com uma idade materna demasiado avançada. Se pensarmos que a idade média de conceção do primeiro filho é aos 32 anos, isso significa que, caso exista um problema de infertilidade, entre o tempo necessário para o identificar e depois o resolver, curar ou tratar, o bebé pode acabar por nascer quando a mãe já tem 36 ou 37 anos. A partir daí, a energia e a capacidade de ter outro bebé diminuem muito. O relógio biológico não abranda - acelera.

As razões que levam as mulheres a adiar a primeira gravidez podem ser sociais ou económicas, e aí os Governos podem intervir. Mas há aqui algo mais, certo?

Sim. E a verdade é que, independentemente do país com que nos comparemos, o cenário repete-se. Mesmo onde há forte investimento em apoios pré e pós-natais, a fecundidade [número de filhos por mulher em idade fértil] continua a cair. Na Finlândia, o Estado assegura praticamente tudo: licenças de maternidade, paternidade, creches, e até os tratamentos de fertilidade são gratuitos, quantos ciclos forem necessários. Ainda assim, a fecundidade desce de forma dramática. Portanto, não é apenas uma questão de políticas públicas - ou, pelo menos, estas políticas públicas não estão a produzir efeito nas gerações mais novas.

O que está a passar-se?

A Federação Internacional de Fertilidade aplicou um questionário a homens e mulheres, perguntando por que razão não tiveram filhos quando estavam em idade fértil. Metade respondeu que, na altura, não sentiu que isso fosse necessário para a sua vida. Os restantes 50% apontaram motivos económicos, de saúde, sociais, a ausência de parceiro, entre outros. Mas o dado mais marcante é este: metade disse que não precisava de ter uma criança… Porquê? “Porque uma criança é uma complicação, por que razão haveria de ter uma?” Para este grupo, trata-se de uma escolha estritamente pessoal, pouco ou nada influenciável por políticas públicas.

Pode haver muitas pessoas que pensam isso quando são mais jovens, mas mais tarde mudam de ideias. Só que aí pode ser tarde demais. Acha que estão desconectadas dos seus corpos?

No fundo, é uma decisão como tantas outras. Há também quem coma, beba e fume durante anos e acredite que, aos 40, chega a um ginásio e fica magra e saudável de um dia para o outro. Isso quase nunca acontece.

Educação sexual e reprodutiva: saber o que está em jogo

Mas o que se pode fazer?

Educar desde cedo. O que eu quero é que os jovens percebam que, à partida, os seus órgãos genitais, os seus órgãos reprodutivos, estão saudáveis. E quero que aprendam a prevenir doenças do aparelho reprodutivo. Quero que aqueles 10%-15% de pessoas que vão ter problemas de fertilidade saibam que existem decisões que podem tomar e que as podem ajudar a alcançar aquilo que, mais tarde, poderão vir a desejar.

Portanto, acha que a educação sexual deve passar por explicar como funciona exatamente o aparelho reprodutor e que, por exemplo, a partir dos 30 anos a fertilidade começa a decair…

Não apenas isso. É essencial explicar que o estilo de vida interfere diretamente com a fertilidade. Se perguntarmos a uma rapariga de 18, 20 anos o que pode acontecer se ela fumar e que riscos corre, ela responde: “A minha pele vai ficar pior, posso correr risco de ter cancro.” O que muitas não sabem é que fumar aumenta o risco de entrar na menopausa dois anos mais cedo - e isso tem de ser explicado, certo? Fuma, se quiseres, mas não te esqueças de que vais entrar dois anos mais cedo na menopausa do que alguém que não fuma. O mesmo se aplica ao peso. Come o que quiseres, engorda, mas fica sabendo que, no futuro, quando engravidares, vais ter dez vezes mais risco de desenvolver diabetes, hipertensão, e a tua gravidez pode tornar-se um pesadelo. Com os rapazes, por vezes, a situação é ainda pior.

Porque as mulheres têm um relógio biológico a andar, mas os homens acham que podem ser pais até morrerem, com 90 anos…

Alguns podem, de facto. Mas os dados de que dispomos são muito claros: quanto mais velho for o homem, maior é o risco de existirem anomalias fetais e no bebé. E isto também devia estar incluído na educação desde cedo. O que acredito é que, quando se fala de educação sexual e reprodutiva, devemos apresentar uma visão completa do que pode acontecer se danificarmos os nossos órgãos reprodutores.

“Antes do final do século, 98% dos países estarão abaixo da taxa de reposição geracional. Vamos extinguir-nos”

O que mais deve ser dito?

Devemos explicar às gerações mais novas que os órgãos reprodutores funcionam apenas durante uma parte limitada da nossa vida. O coração trabalha 24 horas por dia, os olhos estão ativos cerca de dois terços do dia, enquanto os órgãos genitais funcionam apenas durante 1% ou 2% da vida. Em alguns casos, é mesmo zero, como o peito (caso uma mulher nunca amamente). E vale a pena perguntar: por que motivo estes órgãos estão tão expostos ao cancro? Por que razão a percentagem de cancro da próstata, mama e ovário é tão elevada? Porque são, em muitos aspetos, os órgãos mais frágeis do nosso corpo.

E podem não estar a funcionar…

Podem, sim. Por isso, temos de cuidar deles e preservá-los desde o início. Já falámos do estilo de vida, entre outros fatores. E, se por alguma razão nascermos com alguma deficiência nestes órgãos, devemos ponderar a preservação de óvulos e de esperma. Em suma: fazer o que for necessário para preservar a nossa fertilidade. Dou-lhe um exemplo adicional. Ter uma baixa quantidade de esperma não significa necessariamente uma patologia, mas é um sintoma. Pode resultar de um problema genético, pode ser cancro nos testículos. Portanto, nem sequer é apenas uma questão de saúde reprodutiva - é saúde no geral. E convém prevenir o máximo possível.

Técnicas, perceções e limites nos tratamentos de fertilidade

Acha que se criou um paradoxo com o avanço das técnicas de fertilidade, levando a adiar a parentalidade porque a medicina resolve?

Volto ao mesmo ponto: educação. Porque, quando aparece na capa da “Feira das Vaidades” uma atriz de 50 anos grávida, muitas mulheres concluem que também podem ser mães aos 50.

Se há 20 anos se considerava tarde ter um bebé aos 35, 36 anos, agora essa ‘barreira’, por assim dizer, passou para bem depois dos 40…

Mas essa é uma perceção totalmente errada. Nós aumentámos a esperança de vida, mas a duração da vida reprodutiva mantém-se igual. É, sobretudo, um problema de perceção. Se pensarmos que há 80 anos a menopausa nem existia, porque as mulheres nem sequer viviam até essa idade... Ou seja: prolongámos o tempo de vida, mas a janela reprodutiva não se alterou. E, se a menstruação entra na sua fase final aos 40-45 e uma mulher começa a tentar engravidar aos 39-40, isso significa que está a tentar no fim da sua vida reprodutiva - não a meio, como muitos acreditam. Está a meio da vida, mas no fim da vida reprodutiva.

Recursos, políticas públicas e o desafio demográfico

O que pensa das políticas públicas para tratamentos de fertilidade? Em Portugal existe um enorme problema de listas de espera.

Isso, no essencial, é uma questão de recursos e de escolhas políticas. Há 50 anos, profissionais de saúde e decisores políticos conseguiram criar um sistema de planeamento familiar, e a contraceção disseminou-se pelo mundo com sucesso. O problema hoje é que não temos mais recursos e os políticos parecem pouco interessados na questão da fertilidade. E os dados são muito claros: vamos desaparecer do planeta e seremos a única espécie que se extinguirá a si própria.

Mas há um problema de demografia no mundo?

Há, sim. Antes do final deste século, 98% dos países estarão abaixo da taxa de reposição geracional [2,1 filhos]. Neste momento, isso já acontece em 46% dos países, que representam 60% da população mundial. E, se olharmos para a África subsariana, vemos que em 50 anos se passou de 6 bebés por mulher em idade fértil para 2,8 - portanto, estão quase a atingir os 2,1. É uma questão de alguns anos.

Em Portugal são as mulheres imigrantes que estão a ‘segurar’, digamos, os números da natalidade…

Mas isso não vai resolver. Em Itália observamos o mesmo, talvez um pouco menos do que um terço, mas o que acontece é que, uma vez na Europa, estas mulheres imigrantes adaptam-se à sociedade em que vivem. Em Itália, isso é muito evidente: há muitos imigrantes que, nos seus países de origem - Marrocos, Argélia - teriam cinco ou seis filhos, mas em Itália acabam por ter um ou dois, porque não conseguem sustentar mais do que esses. O imigrante na Europa tem um ou dois filhos e o irmão que está em Marrocos tem cinco ou seis. Estes números apenas estão a encobrir um enorme problema.

A consulta de saúde reprodutiva nos 20 anos: o que avaliar e porquê

Falando agora dos tratamentos de fertilidade. Acha que o sistema público deve limitar o acesso a estes tratamentos baseado na idade das mulheres?

Defendo que impor um limite de idade, por si só, não faz sentido. Penso que devemos olhar para cada país e perceber até que idade, por exemplo no Ocidente, existem gravidezes naturais. Se, num determinado contexto, ainda há gravidezes naturais aos 48, 49 anos, esse deve ser o limite. Noutros, o limite pode ser 50 ou 51 anos. A minha posição é que não devemos ultrapassar muito o limite que a natureza nos impõe por duas razões: primeiro, porque é provável que estejamos a aumentar o risco para a doente; segundo, porque o recém-nascido também tem o direito a uma vida considerada ‘normal’ em sociedade. O caso da mulher indiana de 70 anos que teve um filho - o que será desse adolescente? Não me parece razoável.

Mas há fatores clínicos também, não?

Sim, e é exatamente por isso que a idade não deve ser o único critério. Podemos ter uma mulher de 45 anos que é obesa, diabética, fumadora, com histórico de acidente cardiovascular, e a quem, nesse caso, não deve ser facultado o tratamento. Mas, novamente, esta pessoa devia ter sido informada e alertada muito cedo.

O que diria a uma rapariga ou a um rapaz nos seus 20 anos que viessem ter consigo dizendo “nós queremos ter filhos, mas não agora, o que nos aconselha?”?

Eu diria: invistam, por favor, uma hora da vossa vida e façam estes exames - uma colheita de sangue, uma ecografia e um teste de esperma. Se estiver tudo bem, voltem quando decidirem ter um bebé, mas com atenção. No caso da rapariga, é importante que saiba que aos 34, 35 anos a sua fertilidade vai cair; no caso do rapaz, cuidado: não estejas exposto a agentes tóxicos se não queres que o teu esperma diminua.

E se alguma coisa estiver errada num desses exames?

Dir-lhes-ia: pensem bem se querem mesmo ter um filho, porque se querem realmente não percam o vosso tempo.

Acha que toda a gente deve fazer um pré-diagnóstico aos 20 anos?

Sim, claro. Por que razão uma criança vai ao oftalmologista aos 6 anos? Porque, se estiver a ver mal, vai precisar de óculos. Se não precisar, segue a vida e volta aos 10 anos. E por que motivo se vai ao dentista sem ter dor de dentes? Pela mesma lógica.

Acha possível avançar com essa ideia?

O dinheiro que seria gasto aqui nem se compara ao que se gasta em tratamentos de fertilidade. E depois não é apenas uma questão técnica: há o tempo investido pelas pessoas, os testes, os tratamentos - tudo isso sai muito mais caro do que prevenir. Por isso, sim, acredito que esta é a direção que qualquer país civilizado deve seguir.

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