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Crianças, ecrãs e a perda de ler as horas num relógio de ponteiros: 20% consultam o telefone ao acordar

Criança aponta para um relógio de mesa enquanto um adulto o segura numa cozinha com pão e laranjas.

Cada vez mais habituadas aos ecrãs desde muito cedo, muitas crianças já não conseguem dizer as horas num relógio analógico, o clássico relógio de ponteiros. Um dado que deixa de surpreender quando se junta outro número: 20% das crianças dizem que olham para o telemóvel assim que acordam.

Em França, aumenta o número de crianças que se tornaram incapazes de decifrar um relógio analógico, o de ponteiros, uma aprendizagem que os pais costumavam fazer ainda antes de entrarem no 1.º ano. Durante anos, isto foi visto como uma curiosidade engraçada; agora, porém, começa a preocupar a sério professores, pedopsiquiatras e especialistas do desenvolvimento cognitivo. Porque o que se perde não é apenas uma habilidade prática: é uma forma de relação com o tempo, com a atenção e com a autonomia que se vai desfazendo.

Ecrãs ao acordar: um hábito que ocupa o lugar do relógio

A constatação encaixa com um outro indicador, divulgado esta semana pela TF1 Info: em França, 20% das crianças afirmam consultar um ecrã logo ao despertar. “Assim que me levanto, olho para o meu telemóvel”, conta uma aluna do ensino básico. “Quando tomo o pequeno-almoço, gosto de ver um vídeo no meu telemóvel”, acrescenta outro, com a mesma naturalidade.

O smartphone deixou de ser apenas mais um objecto entre outros. Passou a ser o primeiro gesto do dia, antes da taça de cereais, antes do “bom dia” aos pais. É o despertador, o relógio, o jornal, o companheiro.

O psicanalista Michael Stora, especialista no mundo digital, traça um diagnóstico preocupante. “Quer seja à noite ou de manhã, são momentos bastante decisivos para a capacidade de se auto-acalmar”, explica. “A criança vai usar o telemóvel como uma espécie de prótese que lhe permite acordar para o mundo. E isso não é necessariamente uma boa ideia”. Assim, a criança já não desperta sozinha: desperta com o ecrã. E, em vez de procurar a hora num mostrador, recebe-a de forma passiva.

Este deslizamento é ainda mais inquietante porque não se limita aos mais novos. Em declarações à BFM TV, adultos - por vezes trintões e quarentões - admitem hesitar perante um relógio de ponteiros. O fenómeno tem um lado geracional, mas acelera sobretudo nas idades mais baixas, para quem o relógio analógico simplesmente nunca fez parte do dia-a-dia.

Momentos a preservar

Seria fácil desvalorizar o tema e dizer que é preciso acompanhar os tempos. Afinal, quem ainda precisa de ler um relógio de parede quando a hora aparece em todo o lado (no telemóvel, na televisão, no micro-ondas, no carro)? Só que a leitura das horas num relógio analógico não é apenas uma competência utilitária.

Porque ler um relógio analógico é mais do que “ver números”

Na prática, envolve orientação espacial, cálculo mental, noção de duração e de fracção. Também treina o cérebro a pensar em ciclos, e não em dígitos isolados. Uma criança que já não sabe ler as horas num mostrador perde um exercício cognitivo quotidiano - substituído por… nada. Então a solução seria proibir os ecrãs aos mais novos? Joëlle Sicamois, directora da Fondation pour l’enfance, prefere uma posição equilibrada:

Não se trata de proibir a 100% os usos; isso não será possível e não é necessariamente desejável. Mas há momentos que é preciso preservar, e o pequeno-almoço faz parte.

A ideia, portanto, não é declarar guerra aos ecrãs (uma guerra perdida à partida), mas sim proteger os poucos momentos do dia em que o cérebro da criança precisa de calma, de interacção humana e de estímulos não digitais.

As autoridades francesas começaram a reagir. Desde Janeiro de 2025, as referências sobre ecrãs passaram a estar integradas no boletim de saúde. Desde Julho de 2025, os ecrãs estão oficialmente proibidos nos locais de acolhimento da primeira infância. A Santé publique France recomenda ainda que não se entregue um smartphone antes dos 13 anos. São medidas úteis, mas chegam depois de uma década de exposição massiva e, em grande parte, pouco enquadrada. Além disso, estas precauções só têm efeito se os pais as tiverem em conta e as aplicarem - o que nem sempre acontece, até porque eles próprios são frequentemente absorvidos pelo smartphone.

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